- E aí véi, qual a programação pra esse fim de semana?
- Ainda não sei. Provavelmente fazer questionamentos sobre a minha existência, até o sol raiar na segunda feira, quando então aceitarei cegamente 42 como resposta por não saber fazer a pergunta correta.
- Bacana. Eu ia te chamar para um churrasco, mas isso parece ser bem mais interessante.
- É… é sim!
- Posso ir junto?
- Hummmm… Não!
Jogarei damas e gamão.
Reclamarei do tempo e da juventude.
Pegarei filas preferencias no banco e no supermercado.
Dormirei cedo, depois do jornal nacional.
Tomarei remédios…
Pro coração, pro reumatismo, pra pressão, pra depressão.
Falarei que no meu tempo as coisas eram melhores.
Inventarei histórias heróicas para fugir de um passado medíocre.
Cansei dessa vida moderna.
Agora, onde está a minha sopa?
Tudo começou quando não conseguiu desligar uma tomada da parede. Mentira. Tinha começado umas duas semanas antes. Mas a tomada foi a gota d’água, não dava mais para adiar. Tinha que ir ao médico ver que diabos acontecia com sua mão esquerda… Esquisito um cara destro reclamar de dores na sua mão débil.
Não que a outra mão tivesse toda a destreza do mundo, mas pelo menos era mais destra que a outra, e desenvolvia muito mais atividades manuais que a canhota, portanto mais suscetível a dar um xilique e doer quando fosse desligar uma tomada.
Mas é óbvio, tinha que ser a mão mais idiota. O que realmente aconteceu ele não sabia. Podia ter dormido por cima da mão, ou ainda tê-la forçado a fazer um esforço maior que o devido. A hipótese de uma punheta estava completamente descartada… a mão era débil demais para isso.
Continuando, ele finalmente foi ao médico ver que diabos tinha na mão:
- Olha dotô, meu problema na verdade são dois. Minha mão esquerda e meu pé direito.
- Vamos começar pela mão. Você é canhoto?
- Não sou destro… e nem vem com a piadinha da punheta mal-batida que acabou acertando a pia, se tiver que engessar essa porra vou ouvir essa merda amanhã o dia todo saindo da boca de sujeitos tão engraçados quanto uma música de Haendel.
- Hein? Não entendi…
- Deixa pra lá… mas é o seguinte: a mão tá doendo… o pulso pra ser mais exato. Dói quando movimenta.
- Ihhhhh meu filho… isso é enconsto.
- Encosto? Mais que diabos de ortopedista é você? Parece mais um pai de santo…
- Ah! Foi mal. Seu problema é tendite. Passe no cara do gesso, bote uma tala e tome esse anti-inflamatório ninja.
- Mas e meu pé?
- Ah é… engessa ele também e toma o anti-inflamatório.
- Vou engessar só a mão mesmo. Valeu!
Então nosso herói (?) foi visitar o cara do gesso… ganhou uma mão engessada e foi pro metrô pra voltar pra casa.
(toca o tema do Robô Gigante a aparece na tela: To be continued…)
Passou a gostar da chuva. Achava que todos deviam tomar banho de chuva, ao menos uma vez na vida.
Resolveu sair. Pegou apenas as chaves e seu player de audio. Ouvia Cat Power. Interessante como a voz de Chan Marshall combinava com a chuva.
Não tinha destino certo, apenas caminhava sem rumo. Gostava de fazer isso. Dizia que era pra arejar a mente. Sempre fazia sem companhia. Não que fosse anti-social, apenas não tinha ninguém para lhe acompanhar.
Parou numa loja de conveniência, comprou uma cerveja e seguiu adiante. Enquanto bebia tentava se lembrar dos últimos dias. Questionava por que as pessoas tinha toda aquela necessidade de serem fúteis? A imagem da garota loira com uma dose de black label lhe surgiu. Riu sozinho ao compará-la com um violino. “É fácil! É só pegar e passar a vara!”.
Continuava garoando, e seguia andando. Parecia uma sombra. Ninguém notava, ou lhe dava a mínima. Vivia numa situação de anonimato total.
Outras velhas lembranças lhe vieram. Em seu canto, via pessoas dançando numa festa. Pareciam felizes. Quem lhe acompanhava eram sua cerveja e seu cigarro. As únicas palavras trocadas tinham sido com o pessoal do bar. Talvez alguém tenha lhe pedido licença, mas não tinha certeza disso.
Esqueceu a festa, seguiu andando. Não dissera a ninguém que iria dar uma volta. Também não tinha para quem dizer. Tinha apenas a cerveja e Cat Power.
Já estava perto do mar. Resolveu entrar…
A voz fala, não para um minuto qualquer. Apenas por alguns intervalos de poucos segundos para um copo d’água ou uma borrifada de própolis. A propósito: coisa de zé mané hipocondríaco andar com um frasco de propólis no bolso.
E os pés ainda doem.
Pausa pro almoço. Saco vazio não para em pé. Pelo menos é o que diz o ditado. Mas o que são velhos ditados comparados com a indústria farmacêutica moderna?
Hora de voltar a castigar os pés.
A voz também cansou. Mesmo assim ela não para. Repete tudo que havia sido dito antes. Um gravador cairia bem.
Parece que agora será uma hora feliz. Puro engano, antes da felicidade vem o flagelo da volta. E os pés doem ainda mais.
Os pés se animam, estão perto de se verem livres e terem um merecido descanso. A doce ilusão caí como um castelo de cartas atingido por um peteleco. O descanso foi adiado. Coisas ficaram pendentes. Sorte da voz que agora não tinha nada a ver com o caso.
E os pés praticamente gritam. Nessa horas os pés queriam ser a voz. Mas tinham que continuar. E foram.
Depois voltaram. Agora sim chegara a hora da calmaria. Mas não… tinha que querer dar mais uma volta antes. É só pra olhar… desculpinha mais esfarrapada.
De repente o impulso, e foi… deveria ter sido uma coisa legal.
Enfim os pés se libertam. Mas agora é tarde. Não tem desculpa, nem perdão. Apenas o frio.