Carta para Dudu

Oi Vô! Não sei se aà onde o senhor está existe Internet, ou se o senhor vai conseguir acessar e ler essa minha carta. Mas acredito que sim, afinal, dizem, que quando a gente passa por isso acaba ficando onisciente, então o senhor saberá como lê-la… aliás, acho que nem vai ser preciso pois como atingiu a onisciência já sabe dela antes mesmo de ser escrita.
Sabe Vô, eu queria primeiro pedir desculpas por não ter me despedido pessoalmente. Queria muito ter ido, mas infelizmente a geografia fez com que ficássemos um pouco distante, e ficou inviável chegar a tempo na velha Jacobas para uma última despedida.
Agora queria agradecer, por todos os exemplos que o senhor nos deu. Falo como nós porque tenho a absoluta certeza de que meus irmãos e meus primos têm esse sentimento. Posso não ter sido o neto perfeito, nem ter me transformado em um grande homem, mas saiba que aprendi muito com o senhor.
Aprendi muito sobre o significado do companheirismo em uma relação e tenho o senhor e minha vó como modelos a serem seguidos, afinal foram quase 60 anos né? E aposto que teriam sido bem mais se não fosse pelo ciclo da vida, que faz que uns vão e que outros cheguem.
Também aprendi que a felicidade está em coisas simples da vida, como uma arvorezinha que já estava seca mas que serviu para animar uma noite de festa junina improvisada, fazendo a felicidade de algumas crianças, por acaso seus netos
, que estavam passando uns dias na roça.
Outra coisa é a generosidade! Jamais esqueço das vezes que o senhor partilhava mangas, ou outras frutas com outras pessoas nos momentos de fartura na roça em quando tinha um grande excedente. Ou ainda as caronas para o pessoal da zona rural que já o conheciam e chamavam sua atenção com gritos de: “seu Dudu, tá indo pra cidade?”.
É… seu Dudu… eu e meus primos achamos o máximo quando descobrimos seu apelido, ficamos naquela de véi Dudu pra lá, véi Dudu pra cá… mas com todo respeito, admiração e inocência que crianças de no máximo uns 10 anos podiam ter. Antes disso era só vô Moisés, ou seu Móza. Mas o véi Dudu entrou pra estória, sendo considerado membro ilustre do Hotel Barra do Retiro, o nosso hotel imaginário quando brincávamos nas cocheiras.
Bem, Vô, por enquanto eu fico por aqui, mas um dia a gente vai se encontrar novamente e mais uma vez estarei pronto para escutar seus sábios conselhos.
Fique bem, onde quer que esteja agora.
Beijos de seu neto,
Fábio (ou Fabinho como o senhor costumava me chamar, mesmo depois de eu ter crescido e virado um sujeito de porte avantajado)
PS: na dúvida se o senhor realmente ficou onisciente ou se por aà tem Internet, vou pedir pra Gão ou painho imprimir essa carta e entregar-lhe antes da sua partida definitiva.
Tags: adeus, avô, Despedida, exemplo, saudades
15.Jun.09
Despedida, Heróis do Passado
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